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Análise político-estratégica dos ataques terroristas das FARC em Tumaco e Villarrica

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        Tradução: Graça Salgueiro 
 
       Os ataques das FARC contra a população civil em Tumaco-Nariño e Villarrica-Cauca, sucedidos há tão-só uma semana depois do ataque a uma colina de comunicações no Vale e da onda de terror em Catatumbo-Norte de Santander, simultâneos com o artificioso anúncio de dilatar pela enésima vez a entrega a conta-gotas de seis dos membros da Força Pública seqüestrados desde vários anos, reúnem ingredientes táticos, políticos, estratégicos e psicológicos, todos atados ao Plano Estratégico muito conhecido pelo cabeças das FARC, até o nível de frente guerrilheira, mas desconhecido por quase todo o estabelecimento e a sociedade colombiana.
 
 
    No âmbito tático, ressalta-se evidente ausência de medidas de contra-inteligência e atividade de inteligência militar por parte da Polícia e das tropas militares acantonadas nas respectivas zonas. Primeiro, por não sincronizar o trabalho tático-operacional das pequenas unidades com as medidas de segurança inerentes, e com a intenção geral prescrita no Plano Estratégico das FARC que deveria ser tema de análises permanentes em todos os níveis do comando militar e policial.
 
    No âmbito estratégico, os dois atentados demonstram que nem o Ministério da Defesa como ente reitor, nem os organismos de inteligência planejaram uma metodologia ágil, orientada a revisar a repetitiva metodologia baseada no terror e na inquietação utilizada pelas FARC desde Casa Verde até esta data. Cada vez que reluz nos meios de comunicação a idéia de negociar a paz, “coincidentemente” em todos os casos, sem libertar seqüestrados, sem entregar as armas e com a imposição básica de que as FARC têm razão, o “equivocado” é o Governo e por extensão, os colombianos que não são comunistas.
 
     No âmbito político, pela enésima vez os corifeus e os idiotas úteis das FARC lhes fazem o jogo propagandístico. Além dos despreparados e descoordenados negociadores da paz que atuaram em todos os casos anteriores, em Casa Verde o camarada Alberto Rojas Puyo os ajudou por meio de comunicações sub-reptícias que depois Jacobo Arenas publicou em um livro. Em Caracas e Tlaxcala foram o empresário Ackerman e o constituinte Leiva Durán. No Caguán a palhaçada foi coletiva, incluídos aí industriais, jornalistas e pacifistas por todo lado. Depois apareceram os “Colombianos pela Paz”. Repetição da repetição.
 
    No âmbito psicológico, por meio de atentados terroristas quase todos realizados por milicianos que com rapidez se escondem dentro da população civil, as FARC geral a sensação de impotência da Força Pública, põem o país a desejar o regresso de Uribe Vélez à presidência, obrigam o governo nacional a dar passos no vazio, desconsertam a população civil e conseguem presença midiática permanente.
 
     Os fatores enunciados reafirmam que o conflito colombiano chegou ao nível político-estratégico, cenário onde qualquer ação tática incide na dinâmica político-estratégica, portanto, requer respostas políticas e militares desse nível e implica compromisso e ação de todos os ministérios, dos governadores, dos prefeitos, do embaixadores, etc.
 
     A explicação é simples: a guerra das FARC é contra a Colômbia, não só contra as instituições armadas, que evidentemente tampouco podem se descuidar da segurança de suas unidades, nem das medidas de contra-inteligência, nem muito menos renunciar à imperiosa necessidade de ter redes ativas de inteligência de combate que os mantenha atualizados do dispositivo, da composição, da força e das intenções imediatas dos terroristas.
 
     A pergunta-chave seria: por que, apesar de as FARC estarem tão debilitadas, segundo promulga o governo nacional, ocorrem estes atos? A resposta seria complexa e teria vários vetores. Primeiro, pelos efeitos nocivos das sentenças da justiça colombiana contra os militares e a ausência de defesa jurídica qualificada para as tropas que combatem os narco-terroristas.
 
      Segundo, a rotina e a falta de liderança criativa em que caem unidades militares e policiais destacadas em posições fixas sem desenvolver tarefas pro-ativas, nem desenvolver trabalhos de inteligência e procura dos terroristas, incluído o escasso trabalho de legalização da pouca informação disponível acerca dos que integram os bandos.
 
     Terceiro, a falta de canais de comunicação diretos entre o alto comando e essas unidades, devido ao afã diário das múltiplas funções que as tropas cumprem, às habilidosas perseguições das guerrilhas, à falta de clareza do governo nacional, à lenta evolução dos processos para agilizar a comunicação de ordens, instruções, diretrizes e planos.
 
     Quarto, ao erro compartilhado pelo governo nacional e o alto comando ao falar do “fim do fim”, dar a entender que com a morte de Jojoy ou Cano a guerra está ganha, minimizar a capacidade das FARC para se acomodar às circunstâncias e assimilar os golpes recebidos.
 
     Quinto, ao erro compartilhado de não articular a atividade política governamental com a operatividade das tropas. Santos e o ministro Pinzón fazem contas para estar no trono de Bolívar até 2026. Para ambos, o sacrifício das tropas está enfocado em seu benefício pessoal e não no destino do país. Por sua parte, os comandos militar e policial transmitem às sua unidades que, com recurso ou sem eles, com apoio ou sem apoio jurídico, com ou sem o compromisso da classe política, é necessário ganhar a guerra a qualquer custo.
 
    Em síntese: nem os civis conhecem de defesa nacional, nem os uniformizados de política. Assim, estes dois estamentos operacionais do poder nacional levam a guerra contra as FARC enfrentados, ou melhor, engarrafados desde há vários anos em um labirinto cego, com a intenção de vontades mas sem a clareza conceitual político-estratégica de combater o Plano Estratégico das FARC.
 
    Que importante seria se a direção civil colombiana passasse pelas classes da Escola Superior de Guerra e estudasse pelo menos os critérios básicos de defesa nacional, geopolítica, estratégia, logística, tática, conhecimento do Plano Estratégico do Inimigo e as hipóteses básicas da segurança nacional. Outro galo cantaria!
  
    Talvez estas falhas expliquem porque na ante-sala de eventuais conversações com o governo, as FARC repitam o esquema utilizado desde há 30 anos, sem que sejam adequados à resposta política interna e diplomática no exterior para fechar-lhes as portas nos países governados por cúmplices do grupo terrorista, nem suficiente a ação militar e policial para evitar os atos terroristas.
 
    Por essas claras razões as FARC atacaram Tumaco e Villarrica, e vão continuar na mesma tônica de amedrontamento e terrorismo, se o governo nacional não aterrissar e se dedicar a buscar soluções integrais com toda a equipe de trabalho, pois somente a ação militar não é suficiente, nem resolverá jamais o problema. Deve melhorar, mas exige mais compromisso do presidente e dos ministros. Não demagogia midiática pessoal nem trampolins para buscar posições eleitoreiras.
 
* Coronel Luis Alberto Villamarín Pulido
Analista de assuntos estratégicos -
 
 
 
 

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