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Reflexões político-estratégicas, dez anos depois de finalizada a Zona de Distensão com as FARC

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       Poucos dias depois da posse de Juan Manuel Santos, começou-se a rumorar que seu governo estaria empenhado em reiniciar conversações com as FARC. A versão tomou mais força e inclusive as FARC a ratificaram com sucessivas escaladas terroristas em Putumayo e Caquetá, que foram respondidas pelas tropas com dois bombardeios estratégicos em menos de uma semana.
 
      No primeiro caíram abatidos no Putumayo duas dezenas de terroristas, entre os quais estavam Lucero Palmera, a concubina de Simón Trinidad, e o experimentado cabeça Domingo Biojoy. Três dias depois foi abatido em La Macarena o Mono Jojoy, símbolo do narco-terrorismo comunista contra a Colômbia. 
 
     De imediato, os camaradas do Partido Comunista, de luto pelas irreparáveis perdas para seu projeto estratégico, imploraram pelo “diálogo com a insurgência em busca da paz democrática”. 
 
     Esta jogada político-estratégica não era nenhuma novidade. Corresponde ao acordado pelas FARC e o partido como linha de ação e estratagema de distração a partir de 1991, quando em associação com os comunistas venezuelanos que planejavam o golpe de Estado dirigido por Hugo Chávez, urdiram a farsa dos diálogos de paz em Caracas, graças à estultice compartilhada pelos presidentes Cesar Gaviria e Carlos Andrés Pérez, que morderam a isca. 
 
     Desde a outra margem, após a morte de Jojoy o presidente Santos ameaçou as FARC de voltar a golpeá-las se não renunciassem ao narco-tráfico, ao seqüestro e ao terrorismo contra a população civil, porém ao mesmo tempo enviou mensageiros secretos para propor-lhes sentar-se para negociar a paz. Cano, que era expert em tramar enganos, também enviou seus emissários, porém a ofensiva militar contra Cano estava na reta final.
 
      Talvez por esta razão, apareceu um sacerdote inflamado em Cali que, de maneira irresponsável, quis dar a entender que a morte em combate do chefe terrorista teria sido um crime contra um pobre velhinho, cego, faminto, só e desvalido.
 
       Após a morte de Cano apareceu Timochenko com palavras rebuscadas e intencionalidade fingida de fazer a paz. Como se os dirigentes políticos, os meios de comunicação e os analistas políticos não discernissem as históricas manipulações midiáticas das FARC e seus cantos de sereia. Os sabe-tudo voltaram a falar sem parar para refletir o que as FARC pretendem, quando dizem estar dispostos a reiniciar a agenda do Caguán sem entregar as armas, sem se desmobilizar, sem ceder nos objetivos de sua obtusa ideologia comunista, e sem deixar de amedrontar os colombianos por meio do terrorismo consentido pelos governos do Foro de São Paulo.
 
      Tudo o que foi dito acima serve para dar uma visão analítica retrospectiva à somatória de erros repetidos em Uribe-Meta (1984-1990), Caracas-Tlaxcala (1991-1992), o Caguán e arredores (1998-2002). Ao analisar os conteúdos do Plano Estratégico das FARC e compará-los com as três experiências negativas enunciadas, qualquer leigo em temas estratégicos evidencia que nos três casos, sem exceção, as FARC repetiram a mesma metodologia manipuladora e que para cúmulo dos males, os sucessivos despreparados negociadores do governo caíram na mesma cilada.
 
       A explicação é simples. As FARC e o Partido Comunista chegaram às três mesas de negociação, guiados por um plano de guerra que contempla todas as possibilidades armadas e políticas, para ter acesso ao poder na Colômbia sem renunciar a seus objetivos, enquanto que os representantes do governo, além de despreparados, estiveram improvisados, descoordenados, arrogantes e loquazes. 
 
      Durante o Pleno Ampliado de 2003 e a Nona Conferência Guerrilheira de 2007, os cabeças nacionais e regionais das FARC revisaram com profundidade os avanços quantitativos e qualitativos de seu Plano Estratégico, a partir da experiência da Zona de Distensão.
 
      Concluíram que, assim como houveram aspectos negativos pela inatividade armada de algumas de suas quadrilhas, ganharam muito espaço com os governos amigos de Chávez, Correa, Evo, Lula, os Kirchner, Ortega e a ditadura cubana, o qual foi referendado nos computadores de Raúl Reyes.
 
       Além disso, pontuaram que o controle coercitivo de núcleos geo-humanos dispersos ao longo e ao largo de 42.000 quilômetros quadrados facilitou às FARC incrementar os negócios da coca, seqüestros, extorsões, ameaças intimidatórias, aquisição de armamento especializado para ações de transcendência político-estratégica, graças à falta de visão do presidente Pastrana preocupado em ser Prêmio Nobel da Paz, a cumplicidade do Congresso da República que nunca se manifestou a respeito e a idiotice coletiva de milhões de colombianos que toleraram a afronta.
 
     Ao se completar 10 anos do final do turbulento processo, surgem vozes a favor de repetir a ópera bufa, provenientes dos que sempre usufruíram o poder e só pensam em ganhar novas prebendas, inclusive a custa de sacrificar os supremos interesses nacionais.
 
      Seria uma impossibilidade moral e um grave erro político-estratégico reiniciar conversações de paz com as FARC, sem antes ter preparado uma equipe negociadora com visão patriótica e estrutura político-estratégica que, como primeiro requisito, conheça o Plano Estratégico das FARC e revise com lupa todas as maquinações e  contos do vigário utilizados pelos terroristas e seus sócios em conversações anteriores.
 
      A fracassada zona de distensão deixou o país afundado na soçobra, as Forças Militares mal lideradas, as FARC providas de triunfalismo, fortes nexos do Foro de São Paulo com as FARC e os partidos comunistas do hemisfério, a vergonhoso posicionamento da Colômbia como um dos países mais violentos do planeta, os bandos de criminosos mal chamados de para-militares iguais ou piores do que as FARC, apropriados do controle de amplas zonas do território colombiano e a figura do presidente Pastrana como primeira autoridade nacional e comandante supremo das instituições armadas deterioradas por fraqueza, improvisador e carente de caráter para pôr os terroristas em seu lugar nas mesas de conversações.
 
      Com todos esses antecedentes, é pertinente concluir dez anos depois que a Zona de Distensão foi uma vergonha histórica que, com o passar do tempo, a história julgará Pastrana e o Congresso da República como frouxos, incompetentes e carentes de visão estratégica.
 
      Não os salvarão os reiterados argumentos de haver desmascarado as verdadeiras intenções narco-terroristas das FARC, pois na realidade o Departamento de Estado dos Estados Unidos e a União Européia declararam as FARC, o ELN e as AUC como terroristas, depois dos ataques terroristas da Al-Qaeda em 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington. Não pelas atrocidades que cometiam contra a Colômbia.
 
     Tampouco poderão argumentar a obediência devida e o cacarejado fortalecimento das Forças Militares, pois era o mínimo que Pastrana devia fazer, porque com a zona de distensão ou sem ela, as FARC tinham em mente continuar o desenvolvimento de seu Plano Estratégico que é de guerra, não de paz.
 
      Do mesmo modo sucede hoje. Com diálogos ou sem eles, com trégua ou sem ela, com zona de distensão ou sem ela, as FARC continuam empenhadas em desenvolver seu plano estratégico contra a Colômbia, auspiciadas por seus cúmplices internacionais. A resposta do Estado deve ser integral. Não basta dar baixa aos cabeças, pois não se cumpre o ensinamento de Sun Tzu: “Para ganhar a guerra é necessário derrotar a estratégia do inimigo. Não só o inimigo”.
 
       Do contrário a guerra continuará por décadas, cairão outros cabeças principais, o narco-terrorismo continuará no país, Chávez e Correa - ou seus sucessores - continuarão empenhados em pôr a cunha comunista na Colômbia e o terceiro-mundismo se afiançará nas estruturas políticas, sociais, econômicas e culturais da atribulada vida nacional.
 
      Este é, talvez, o principal ensinamento político-estratégico do fiasco do Caguán e da zona de distensão autorizada pelo auto-publicitário ex-presidente Andrés Pastrana Arango, coonestado por todos os colombianos vivos naquela época.
 
Coronel Luis Alberto Villamarín Pulido
Analista de assuntos estratégicos
 
 

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